domingo, 7 de março de 2010

Livre-Arbítrio Desconjurado


Tosse de volta tudo o que tragou
chora com nuvens na mão
o grito de um bebê
com a força do mundo
veia estufada, impede
pede
passagem pro mundo
um centro óxido arde
expele pele dura
o início era distante
fomos jogados, simples assim
rodopiando, se queixando
adorando esse fruto da nossa
não imaginação
vida tanto morte tanta vida
cada um não é,
desviam e abrem o destino
a um âmbito muito mais belo
e menos encaixotado.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Com o dom, A Palavra.


como é tortuoso o caminho da palavra
torce retorce distorce contorce
metamorfa-se
continua, não importando natalidade
nem lápide

assombra entristece
ressalta enaltece
elucida, tenta
falha falha falha

Fé, é preciso ter fé
nela que não se explica
para uma palavra não há metalinguagem
um universo, talvez...

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

um dia na vida


Algum cedro morto sustenta meu copo vazio que logo se enche com um movimento positivo da cabeça. Observo o líquido que tem a cor de um fim de tarde dominical e penso "o que me faz falta é o que já não me faz falta". Olho para minhas mãos, minhas unhas, crescem, o prato de flores cresce, o sorriso da garçonete de olhar opaco, cresce, a criança chora à partida do pai, cresce, cresce! creche! cheque! xeque. Esse sexo de imagens já me interessou, mas agora não passa de fragmentos no meu inconsciente, conviver com a solidão é um trabalho duro, mas também rende bons frutos, mato minha bebida sem misericórdia, levanto-me e sorrio, vejo rostos indiferentes e esboços de simpatia, jogo um adeus pro ar e sigo meu rumo.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Nordeste da Vitrola Quebrada


Eu quebrei um dente
nada mais que de repente
só pra fazer esse repente
pra alegrar a minha gente
que veio do sol nascente
veio sorrindo e veio contente
pra viver a vida simplesmente

E eu quebrei um ovo
pra cantar isso de novo
prum levante d'otro povo

[avisá que se vive simplesmente
como é o cair de um dente
...

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Western Dreams


-Eu não aguento mais isso, saímos de Jacksonville há um mês e tudo o que encontramos foi uma perna quase sendo amputada, isso é loucura! E já sou quase um ex-fumante.
-Paciência meu amigo, logo encontraremos a tal cidade, e porra, pare de ser tão chato, pelo menos ainda temos nossa gaita.
-Não dá pra se fumar uma gaita.
-Amém! Senão era capaz de você acabar com o único motivo de estarmos de pé ainda em uma tragada, essa viagem está lhe fazendo um bem enorme, o cigarro é o demônio, você não se sente mais jovem? mais revigorado?
-Eu vou acabar com você seu filho da puta! Venha aqui!
-Espere, espere! Vês aquilo?
-Não acredito! Então isso é a grande Nova Orleans, um monte de bosta habitada por um bando de lixo! Faça-me o favor...
- Cara, então por todo esse tempo você cultivou mesmo a imagem que esta cidade seria como nos westerns que você assistia com o seu pai quando não tinha nem pêlo no saco? Estamos em 1922 meu caro amigo, sossega esse rabo, vamos lá.
- Pra que viemos mesmo?
- Vou entrar na Big Band do Louis Armstrong, de acordo com o livro que li ele ainda não foi pra Chicago.
- Puta que o Pariu!

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Folha de Outono


Estou na última esquina
O derradeiro passo é próximo
Quando chegar não saberei
se parti ou retornei
o vento acaricia meu cabelo
Beijo a vida como se fosse amante
apaixonadamente me despeço
como o faria qualquer coitado
pois estando cego de passado
não a vê movediça e ardilosa
a noite se apaga.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

O Nascimento do Arco-Íris


A caminhada foi longa, mas terminou
uma parede imensa em minha frente mostra-se
verifico seus arredores, não tem fim
porém o outro lado é aparente
e em todo sua nobreza
uma grande árvore se exibe
juntamente a maravilhosos frutos

Neste momento, um anjo viajante passea
percebo uma lágrima, ela é fantástica
e a ela se juntam outras mais
varrendo o céu num espetáculo fabuloso
envolvendo a planta e seus filhos em sua
tristeza amarga e sincera

O anjo se perde na imensidão do azul
num pequeno intervalo entre a chuva e o sol
sete frutos se libertam de sua genitora,
e em uma transmutação repentina
tornam-se flores, com sete cores
e dançam conforme o batismo do vento

Fascinado pelo que acontecia diante de meus olhos
fui tomado por um estranho sentimento
era um misto de felicidade e angústia
espanto e tristeza
pois fui um homem de sorte ao presenciar
algo que poderia mudar qualquer homem
portanto meu desejo foi o de que todos
tivessem o mesmo fortúnio

Foi quando eu notei que as flores me fitavam,
compreendendo o que se passava em minha alma
decidiram então fazer um acordo com o Céu,
ficariam juntas eternamente com ele.
se mostrariam ao mundo e deixariam mais feliz
o nostálgico e melancólico cinza
a que ele se submete após a chuva.